Testemunho Manuel

Desde sempre que tenho presente em mim o sentimento de não pertencer a um grupo. Se, por um lado, não me sentia à vontade junto dos rapazes e das suas brincadeiras, por outro sentia que também não era junto das raparigas que me poderia encaixar de forma natural. Fui crescendo nesta dualidade, desenvolvendo sentimentos de inferioridade em relação aos outros, que marcaram definitivamente as relações que fui desenvolvendo ao longo da minha vida, sempre pautadas pela busca da aprovação do outro a par com instintos de competição, por vezes muito pouco saudáveis e que me levavam normalmente à frustração.

Em criança lembro-me pouco do meu pai que, por trabalhar até tarde, estava pouco presente nas nossas vidas, passando dias sem o ver. Toda a casa funcionava em função do Pai e dos seus desejos e disposições, o que me infligia algum medo. Medo de fazer barulho, de desagradar-lhe, de ser inconveniente. A adolescência foi passada neste clima de medo, pois o meu pai, embora muito ausente, era bastante rígido na educação dos filhos, deixando pouco espaço para certas liberdades e bastante crítico em relação aos nossos comportamentos e atitudes. Lembro-me de sentir permanentemente que talvez não fosse o filho que ele gostaria de ter.

Foi com esta idade que descobri que o meu pai tinha uma vida dupla do qual resultou um filho fora do casamento. Foi um choque brutal e que marcou ainda mais a nossa relação, criando em mim, por um lado, sentimentos de ódio pelo que a minha Mãe tinha sido obrigada a passar e, por outro lado, e de forma inconsciente, deixou em mim a semente da infidelidade impune que iria mais tarde desenvolver-se na minha vida futura.

A minha Mãe era super protetora, tendo uma relação muito próxima com cada um dos filhos. Era quem estava sempre presente, uma mulher forte e determinada, por vezes dura nas suas convicções e opiniões, mas que vivia para nós. A nossa relação sempre foi de grande cumplicidade, por vezes até de demasiada cumplicidade o que marcou profundamente a minha vida e a forma como vejo o mundo.

Mas apesar de tudo, lembro-me de ser uma criança feliz. De amar a minha família, dos momentos bons em que estávamos todos juntos, das férias e das festas. Mas sempre sentindo que me faltava alguma coisa.
Na juventude, embora me sentisse diferente, não me lembro de me sentir atraído por rapazes mas sim por raparigas. Tive algumas namoradas (poucas) e comecei a namorar, durante o secundário, com a mulher com quem viria a casar. É durante o casamento que começam a surgir as primeiras atrações por pessoas do mesmo sexo. Embora o corpo masculino sempre me tenha provocado sentimentos que me deixavam confuso, talvez porque nunca me senti bem no meu próprio corpo, que achava desadequado e pouco masculino, foi só depois de casado e com filhos que comecei a desenvolver estas atracões. E estas estão definitivamente ligadas à descoberta da pornografia on-line. Comecei a ver pornografia gay e rapidamente fiquei viciado. Todos os momentos livres a sós eram aproveitados para o fazer. E isto levou-me ao desejo de querer envolver-me sexualmente com homens, o que acabou por concretizar-se e durante muito tempo tive uma vida dupla: por um lado uma família perfeita, católica, envolvida na sua comunidade paroquial, por outro a minha busca desenfreada de prazeres momentâneos na pornografia e no sexo com outros homens e que me deixavam vazio por dentro (a tal vida dupla do meu Pai!!!). De novo a dualidade na minha vida, que me impedia de pertencer verdadeiramente a algo, que não me deixava estar presente realmente nas coisas.

Não tendo sido educado numa família católica a sério, fiz a catequese normal e sempre fui um homem de Fé. Não concebo a minha vida sem Fé. E sentia-me o pior dos homens, pois desapontava continuamente o Deus Pai com as minhas permanentes faltas de amor. Consumia pornografia e tinha relações sexuais com homens e imediatamente me confessava. Estava uns tempos sem o fazer e voltava ao mesmo. Era o mais infeliz dos homens. Tinha uma família maravilhosa, uma vida boa, um Pai do Céu que me amava e eu fazia tudo errado, traía tudo e todos continuamente!

Comecei a procurar ajuda, a ler tudo o havia sobre a atração pelo mesmo sexo e acabei por constatar o que eu já sabia no meu íntimo: que estes desejos não me definiam enquanto pessoa e que era possível deixar de os sentir. A internet estava cheia de testemunhos de quem já tinha passado por isto e tinha vencido. Mas, mesmo assim, eu não conseguia. Até que a minha mulher descobriu a minha vida dupla. Foi um momento de grande sofrimento. Só a Fé e a Igreja permitiram que nos mantivéssemos unidos apesar da dor tão grande que lhe provoquei. Dou graças a Deus pela mulher extraordinária que colocou no meu caminho. Se, por um lado, foi um momento de grande sofrimento, por outro foi um grande alívio para mim.

Pela primeira vez pude falar com alguém sobre o que sentia, sobre o que tinha feito. Tudo o que estava dentro de mim já não era só meu, já não tinha que o esconder. Foi só a partir deste momento, passados anos de traições e de procurar sozinho sair deste labirinto em que me encontrava que pude iniciar o caminho da liberdade. A conselho de um Padre amigo, comecei a fazer terapia onde pude falar de tudo o que tinha passado e tudo o que sentia, expulsando os demónios mudos que, quando estava sozinho, facilmente cresciam dentro de mim. Depois, por motivos de agenda, deixei de fazer terapia, conheci uma pessoa que estava a fazer um caminho de cura num movimento espanhol que nos dá diversas ferramentas que nos ensinam a conhecer-nos melhor e a lidar com as situações que nos poderão colocar em perigo e, acima de tudo, nos dá uma comunidade com a qual estamos em permanente contacto e nos ajuda nos momentos mais difíceis. Nesse momento percebi que era este definitivamente o caminho. Um caminho que só pode ser feito na verdade e na entrega completa aos nossos irmãos.

O caminho para curar as nossas feridas passadas e ser livre passa necessariamente pelo aprofundamento da nossa relação com Deus, através da Oração e dos Sacramentos e também por esta entrega ao outro, nesta entreajuda que nos descentra de nós. As tentações continuam a existir, embora com cada vez menos intensidade, mas saber que o outro conta connosco para fazer o seu caminho dá-nos outra responsabilidade.
Hoje sou um homem melhor, um pai e marido mais presente e atento, um melhor filho (a minha relação com o meu pai tem vindo a melhorar e atualmente compreendo que ele foi o melhor pai que soube ser dadas as circunstâncias), um melhor amigo e acima de tudo um melhor filho de Deus Pai. Com as suas dificuldades, mas que diariamente procura transformá-las em momentos de oportunidade para crescer na Fé e no Amor.