Testemunho Jaime

Infância
Fui criado numa família numerosa, tradicional, católica. Eu era o penúltimo filho. O meu pai faleceu quando eu era muito novo e não me lembro dele. Do que lembro é o que dizem que ele fazia. O meu pai morreu em casa e foi um momento bastante traumatizante para mim. Não me lembro de nada anterior aos cinco anos.

Nessa idade, devido à doença do meu pai, a minha mãe pôs-me num jardim de infância de que não gostei nada. Na primária, devido à minha descoordenação motora, era posto de lado nos jogos de equipa. Na verdade, eu excluía-me pois não aceitava não ser o melhor. Corria sozinho pelo recreio para não notarem que estava sozinho. Sempre tive orgulho da minha família. Achava ser moralmente e culturalmente superior aos meus colegas de escola. Até aos 14 anos fui sempre muito mais alto que os meus colegas e, se gozavam comigo, batia-lhes. Impunha-me e sentia que não fazia parte do grupo. Além disso era de uma classe mais alta que a maior parte dos meus colegas e a minha mãe não me deixava ir para a rua. Controlava sempre onde eu andava, com quem me dava. Como tinha irmãos mais velhos, dizia aos meus colegas que já não gostava de futebol e que essa atividade era coisa de crianças.

Os meus irmãos foram trabalhar muito cedo para ajudar em casa. Desde cedo busquei compensação para esta inadequação na comida, no sexo e na leitura.  Tinha fascínio pelos meus irmãos, por serem líderes na escola e terem muito sucesso com as colegas. A aprovação deles era o que mais queria. Não conseguia por mais que me esforçasse. As irmãs eram muito mais velhas e consolavam me-nos meus lamentos. Trataram de mim como se eu fosse seu filho. Mimando e consolando-me sempre que os meus irmãos me criticavam. Nos livros, especialmente romances, fantasiava ser um dos heróis masculinos, que tinham tudo aquilo que eu achava não ter.

Por volta dos dez anos descobri na masturbação alivio para meus sentimentos de inveja e inadequação. E, com a vergonha das fantasias que tinha, desenvolvi uma vergonha que me iria levar a querer agradar a tudo e todos, não sendo capaz de saber quais as minhas reais necessidades.

Adolescência
Teria uns 12 anos e houve um momento que foi marcante para mim e toldou a minha visão distorcida da sexualidade. Nessa altura apareceram os reprodutores de vídeo na casa das pessoas de classe mais alta. Um dia os meus irmãos levaram-me a casa de um amigo deles que tinha adquirido esse aparelho. Em modo de brincadeira o amigo dos meus irmãos mostrou-nos um filme pornográfico. Os meus irmãos ficaram surpresos, mas pediram-me segredo e desvalorizaram o incidente. Disseram que assim já sabia como nasciam os bebés.

Durante a escola já nos 15/16 anos, usando o meu estatuto “superior”, ia convidando rapazes a virem a minha casa com intuito de relacionar-me sexualmente com eles. Usava o fascínio que eles tinham por a minha casa ser muito maior e mais animada socialmente que a deles (p. ex. ver as motas dos meus irmãos, os seus amigos, as roupas caras etc…).Esses amigos roubavam revistas pornográficas aos seus pais. Cheguei a masturbar-me com alguns a ver essas revistas, mas com nenhum assumi ter atração pelo mesmo sexo e assim ainda reforçava o sentimento de ser diferente dos outros. E tive medo que descobrissem que eu tinha essa atração e me delatassem na escola.

Tínhamos padres que frequentavam assiduamente a casa e discutíamos o que era uma sexualidade saudável. Com a razão aceitava esses valores e inclusive discutia-os com os meus colegas de escola acesamente, tratando-os como pagãos. Assim sentia uma dualidade não conciliável entre a sexualidade que desabrochava em mim e o projeto que na razão queria para a minha vida: casar, ter muitos filhos num casamento feliz, como tinha sido o dos meus pais. A doutrina católica condena os atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo e eu senti, um tremendo peso da culpa e vergonha.

A base para a minha fé foi em grande parte o testemunho da minha mãe. A forma serena e determinada com que viveu a perda do marido. A alegria e as amigas e vida sociável que tinha. A forma altruísta como recebia toda a família alargada. A forma como fazia a paz, não alinhando em intrigas e coscuvilhices. Eu ainda acho que só com a ajuda viva de Jesus Cristo seria possível viver esta situação como a mãe viveu. Determinei que Jesus seria o meu caminho, verdade e vida. Contudo a minha mãe tinha um feitio de general. Formou-se em mim uma mentalidade em que coloco rótulos em tudo. Ou é bom ou mau. No meio fico perdido.  Finalmente o amor e interesse que a minha mãe sentia por mim era muito mais forte do que qualquer vinculo que eu viria a sentir no mundo da atração pelo mesmo sexo. Acho que isso evitou que eu “saissse do armário”.

Vendo fotografias dessa altura hoje vejo que não era tão gordo como eu me percecionava. Eu tinha a imagem de ser um badocha. Quando sentia alguma atração por mulheres, se timidamente fazia algum avanço e era rejeitado, desistia imediatamente, alimentando sentimentos de autopiedade. Refugiava-me em comer compulsivamente, a ler e dormir. Superiorizava-me relativamente aos meus pares através da minha cultura- ópera, geografia e literatura. Sempre aparte e sem vínculos.

Tinha medo das mulheres por quem realmente me sentia atraído. Desenvolvi também através da minha mãe – não teve outro homem depois do meu pai- o conceito deturpado da mulher pura e sem necessidades sexuais. E, através da pornografia, o conceito de que todos os homens são depravados e que alinham nas maiores devassidões sexuais. O homem “pastilha elástica” e a mulher como uma ninfa inatingível. Na adolescência estava tão centrado em mim que não reparava se uma rapariga ou rapaz estivessem interessados em mim. A vergonha da pornografia e masturbação colocaram-me como que numa redoma. Tive duas namoradas – “curtes”, mas foram elas que se declararam. Mais tarde viria a mãe dos meus filhos a pedir me namoro…

Assim vivi. Com medo de contareste dilema a que padre fosse. Tentava ignorar.

Universidade
Aos 19 anos, quando estava frustrado por estar num curso de que não gostava, entrei por acidente num local público onde diversos homens estavam a ter sexo. Um lugar de engate. Erotizei a situação. Não me causou nojo – acho que devido à pornografia. Passei a frequentar lugares desses. Não era de gosto muito vincado- queria sobretudo agradar e impressionar os parceiros para que eles ficassem doidos por estar comigo novamente- mas procurava sobretudo homens mais velhos ou da mesma idade que eu. Tinha tanta falta de amor paternal como de amor dos meus pares.

Através das críticas e julgamentos do meu irmão mais velho desenvolvi uma noção castigadora de Deus. Como que um árbitro que estava sempre a ver quando iria cair outra vez. E caí muitas vezes, confessando vezes sem conta a padres diferentes, tal era a vergonha. Não falei nem com a minha família nem com nenhum padre mais próximo. Comecei a não comungar por temporadas. A minha mãe não deitava toalha ao chão. Massacrava-me sem cessar para eu me confessar. Perguntava-me porque não queria arrepiar caminho do que melevava a não comungar. Que os padres já tinham ouvido de tudo.

Nessa altura entrei no mundo da comida saudável e do fitness. Natação, corrida e bicicleta – que pratiquei sempre sozinho – puseram-me com físico impecável. Nessa altura o objectivo era ter sucesso junto dos outros homens com atração pelo mesmo sexo, as endorfinas libertadas pela atividade física aliviavam a neura da situação em que me encontrava.

Tinha lido exclusivamente a visão da Igreja Católica e estudos enganosos (Le Vay entre outros) que afirmavam que a homossexualidade era genética. Born this way. Assim procurava livrar-me da compulsão dos lugares de engate e procurei arranjar namorados. Enganando-me com a estranha tese de que, se não fosse promiscuo, se arranjasse uma relação monogâmica, tudo ficararia bem… e que gostava muito dos ideais católicos, mas gostava mais de sexo.
Por sorte, sempre que conhecia outro homem com atração pelo mesmo sexo, quando o conhecia emocionalmente, desinteressava me por ele. É como se visse a infantilidade de tudo aquilo. A mãe controladora também não dava dinheiro nem permitia que fosse amiúde “para a noite”.
Tirei o curso, comecei a trabalhar continuando com este percurso errático, colecionando números de telefone. Sempre tive uma curiosidade, que considero doentia, sobre a vida das pessoas. A seguir a um engate parecia que sugava as pessoas com tanta pergunta.

Num turismo sexual acabei por ir parar a um centro de retiros protestante e lá Deus operou algo em mim. Quando voltei desse país vinha determinado a pedir pela primeira vez ajuda.

Nova conversão
Foi então que aos 26 anos comecei a ter formação num movimento religioso e o padre que me foi acompanhando deu-me a ler o livro “A batalha pela normalidade” do psicólogo holandês Gerard van den Aardweg. Foi uma bomba na minha vida. Identifiquei-me de forma quase absoluta com tudo o que lá vinha escrito. Chorei baba e ranho. Comprei diversos exemplares e distribuía pelas amizades “coloridas” do passado que encontrava na rua. Alguns deles olhavam para mim como se tivesse perdido o juízo. Para mim nasceu a esperança. Pela primeira vez ouvi a teoria de que a homossexualidade era adquirida no processo de socialização e não era totalmente genética. E que poderia reverter as atrações por homens! A minha profunda imersão no mundo “homossexual” permitia me ter (in)felizmente comprovado empiricamente muito do que Aarweg falava nesse livro. Fui ter com ele à Holanda. Na consulta disse-me que não havia terapeutas certificados em Lisboa. Poderia seguir a terapia por ele proposta com um sacerdote.

Assim fiz. Segui o que era indicado no livro com o conselho do padre. Apaguei todos os contactos de sexo e abandonei– dolorosamente- a masturbação e pornografia. Tive a alegria de ter a minha primeira polução nessa idade. Afinal era possível ser casto!

Namoros e Casamento
O problema foi a pressa. Senti as primeiras atrações sexuais e, passados dois anos, estava a namorar. Sobretudo ter a certeza de que era um “heterossexual funcional”. Tinha ansiedade de não conseguir estar intimamente com uma mulher. E isso toldou as minhas decisões. O movimento católico que me dava formação era muito focado em normas de piedade (missa, formações, orações e jaculatórias durante o dia) mas menos focado no discernimento.  Eu ignorei a parte do livro do Aardweg que tinha tratado do meu problema de relacionamento com os meus pares. Muito mais a relação de submissão com a minha mãe.
A Raquel era muito menina do papá. Muito mimada. A tensão emocional era tão intensa que era insuportável. Nós devíamos parecer duas meninas zangadas.
Passado um ano conheci nesse mesmo movimento a Cátia. Convidou me para uma atividade na igreja e achei logo que era porque estava apaixonada por mim. A Cátia parecia um homem. Parca em palavras (esqueci-me de dizer que, habituado a ser o menino querido das “tias”, eu quando começo a falar não paro de tagarelar). Achei que Deus a tinha posto na minha vida. Idealizei a Cátia. Coloquei-a num pedestal. A donzela pura que iria salvar o depravado.

Não consegui olhar para quem tinha na frente. Ela queria casar rápido – propôs-me casamento passados três meses. Contei-lhe o meu passado promiscuo e a atração pelo mesmo, sexo,  pois isso era mencionado como obrigatório no livro do Aardweg. E sabia que o casamento poderia ser declarado nulo se a Cátia não soubesse antes de casar.  Ela ficou surpresa mas sem dramas. Como eu tinha passado no controlo de qualidade do padre do movimento a que ela pertencia, não via problemas. No namoro ignorei várias coisas que me irritaram. A Cátia foi a primeira mulher com quem estive. Casou virgem. E consumar o casamento fisicamente acabou por ser o menor dos problemas. Tentei tirar a Cátia do movimento da igreja a que pertencia e insistia em entrar noutros movimentos.

Não tive sorte nenhuma. Ela só queria procriar. A vida intima para ela era para engravidar. Tudo o resto era imposto por mim. Eu cada vez mais emocional e dramático e a Cátia cada vez mais fechada na sua concha. Púnhamos sacerdotes e familiares a decidir tudo aquilo com o que não concordamos.  Ela passava a vida nas atividades da igreja e deixava as compras e cozinhados para mim. Isso causou-me imensa insegurança. Não aceitava o papel. Eu sentia-me a fêmea. O “drama queen” da casa. A Cátia era o macho que não sabia expressar as suas emoções. Sentia-me um apêndice na vida dela. Que tinha de estar em determinados momentos, mas de modo algum contava para apoio na minha vida. Parecia que casou para legalmente ter filhos. Com a frustração refugiei-me na comida. A Cátia detestava que eu comesse de mais. E eu achava que, ao menos engordando, conseguia irritá-la. Provocar qualquer reação nela, qual criança que faz birra para chamar atenção. Tivemos dois filhos nos primeiros dois anos do casamento. As nossas diferenças eram cada vez mais evidentes e tomar conta de dois bebes sem ter avós por perto removeu qualquer hipótese de limarmos as diferenças. Passados três anos voltei a ter engates. Foi muito triste, depois de todo o processo de libertação que tinha passado, ver-me outra vez no meio do mundo de engates.

Desta feita acabava por acontecer de mês a mês e nunca trocava contactos com os parceiros. Um sofrimento enorme ao chegar a casa e abraçar os filhos depois de ter tido sexo com desconhecidos. Antes de chegar à pornografia ou engates tinha ataques de comer de modo compulsivo, i.e. comer 1 litro de gelado e dois pacotes de bolos secos numa bomba de gasolina. Acho que fabricava as zangas para arranjar desculpa para novos engates. A Cátia nunca perguntava. Não se importava se tinha relações ou não. Importante era a fachada e os acontecimentos sociais com as suas amigas. Enfastiava-se com as numerosas festas da minha família. Estranhamente, quando a traía nos engates, em casa fazia melhor ambiente. A vergonha do que tinha feito fazia com que tolerasse os abusos da Cátia de bom grado.

Fiz terapia conjugal um par de anos e como consequência tivemos um terceiro filho. Eu sentia-me distante de familiares e sem amigos.

12 passos
Passados cinco anos neste jogo de brincar às escondidas comigo e com Deus, descobri que existiam na minha cidade reuniões que aplicavam os 12 passos dos alcoólicos anónimos ao vício da compulsão sexual e fantasia romântica. Esse grupo foi uma grande esperança para mim porque tinha finalmente alguém que me escutasse e entendesse a minhas lutas. Ver que a cruz da atração pelo mesmo sexo não é a única.  Apesar de na reunião se contarem na maioria outros homens com atração pelo mesmo sexo, vi outros homens com compulsão por pornografia (em exclusivo!), por prostitutas e outros desvios. O ambiente nessa reunião era de honestidade. Todos nós sabíamos onde ir buscar sexo, logo respeitávamos o espaço da reunião. Fazíamos pedidos de ajuda quando estávamos prontos a “recair”. A maior parte dos membros tinha frequentado o programa de alcoólicos e narcóticos. (Ao contrário do meu caso que, qual menino bonito da mamã, nunca me tinha embedado nem drogado). Ao se terem visto livres do álcool e das drogas, tinham-se apercebido de que o sexo também os alienava.

Consegui – continuando a frequentar os sacramentos- voltar a sentir respeito por mim mesmo e recuperar o governo da minha vida. Frequentei também reuniões de 12 passos dos Overeaters anónimos. A vigilância do que comia permitia identificar quando estava a entrar num baixo espiritual e aplicar as ferramentas dos 12 passos para reverter o processo. Assim consegui ter quatro anos em que não tive qualquer engate e recaídas muito esporádicas com pornografia.

Nas reuniões de passos rezávamos a oração da serenidade numa roda e dávamos um abraço a cada um dos elementos que estava na sala. Esse abraço não erótico e de alegria por querermos sair de cada um dos nossos vícios foi muito importante para me “manter limpo”.

Quando tomava decisões lembrava-me sempre da oração da serenidade. Perguntava “Senhor, tenho de ter serenidade para aceitar esta situação? Ou posso pedir coragem para a modificar? Ou estou no nevoeiro e preciso que me dês sabedoria para distinguir se só me resta aceitar a situação ou se posso fazer alguma coisa?”
Nessa altura frequentei pela primeira vez um desporto de equipa e vi como era importante para sanar a minha atração pelo mesmo sexo. Verdadeiramente terapêutico.

No princípio foi o terror. Ao entrar no campo parecia que ia para o matadouro! Forcei-me a seguir os códigos do grupo. Se começava a tagarelar, ligavam logo à terra. Ali só queriam jogar e esquecer problemas do dia a dia. Os membros da equipa queriam lá saber onde eu trabalhava ou quantos filhos tinha. Queriam é que agarrasse bem a bola.  Um mundo novo para mim. O dar um “give me five“, o abraço depois do jogo, onde por vezes me diziam “bem jogado” . O fazer parte da equipa fizeram a minha atração pelo mesmo sexo descer para mínimos históricos. Tinha perdido cerca de 30kg em três anos e sentia-me bem na minha pele. Os que jogavam há mais tempo tinham técnica, mas eu aguentava os bofes mais tempo. Sentia que conseguia fazer parte.

Com a alegria desta nova liberdade veio o sonho de que a Cátia voltasse para mim. A verdade é que ela nunca tinha sido minha. Com o retomar da vida de oração e a frequência de novos movimentos relacionados com a família permitiu-me perceber como o meu casamento não era casamento. Em jeito de ameaça à Cátia, meti o processo no tribunal da igreja. Uma wake up call final. Queria ver se, com esse ultimo reduto, finalmente o coração dela se transformava. A Cátia seguiu a sua vida como nada se passasse.

Solteiro outra vez
Passados três anos recebi a sentença definitiva de nulidade que se baseou na imaturidade de ambos para assumirmos um casamento católico.
Com a alegria de sair de casa renasceu a esperança de tratar a atração pelo mesmo sexo e finalmente encontrar a mulher que me ensinasse que o sexo resulta do amor e intimidade.

A liberdade da sobriedade sexual e alimentar permitiu que me encontrasse como pai dos meus três filhos. Foi livre do vicio do sexo e comida compulsiva (binge eating) que consegui assegurar uma custódia partilhada (metade do tempo em casa do pai). Consegui também normalizar muitas das relações feridas com a minha família alargada. Aprendendo a dizer que não e identificando quando estavam a manipular-me. A remoção da vergonha dava me uma visão mais realista de tudo o que me rodeava.

Sem racionalizar, comecei a fartar-me da reunião dos passos. Passados sete anos dessas reuniões acho que me esqueci o que era o inferno da vida dos engates. Queria uma mulher para partilhar a vida ao invés de passar a vida a acolher os “recém-chegados”. De passar horas ao telefone a receber pedidos de ajuda e a responder a SMS. Estava farto das mulheres obesas e anoréxicas a chorar na reunião da comida. Achei que estava em controlo e achei que pelas minhas forças conseguia a sobriedade.

Além disso dei-me conta de que, ao contrário das reuniões de narcóticos, as reuniões de passos da comida e sexo tinham uma rotação elevadíssima de membros. As pessoas numa sociedade que incita ao prazer imediato e sem valores religiosos, depois de algum tempo de sobriedade, desapareciam. Terei mantido contacto com mais de trezentos companheiros, sendo que na maior parte das reuniões éramos somente cinco ou seis. Não entendiam tão claramente- como perceberam no caso do vício em drogas químicas- como o vício do sexo ou comida os podia levar ao cemitério, hospital ou cadeia. E isso gorava as minhas expetativas de ver as reuniões crescerem, tal como aconteceu nos alcoólicos ou narcóticos. Comecei a fartar-me e em certas ocasiões existia um certo voyerismo das vidas dos outros.
Durante estes anos estive somente em movimentos e amigos em conjunto com a Cátia. Depois da nulidade apercebi-me de que tinha perdido todo esse núcleo de amigos. A grande parte ficou do lado da Cátia. A mulher calma, sempre sorridente e bem relacionada era muito mais convidativa do que o Jaime “drama queen”.  E, sendo de uma ala tradicionalista, nem acreditavam muito bem como é que a Igreja Católica podia declarar um casamento nulo se existiam três filhos.

Na internet descobri um site de dating para relações com vista ao casamento. Dolorosamente descobri que as mulheres por que me sentia atraído eram aquelas que tinham feridas parecidas com as da Cátia. Tive vergonha de revelar estas frustrações aos companheiros dos passos, a quem queria passar a imagem que a minha vida em sobriedade era idílica. As mulheres com quem fui sair, que eram maduras e sistematizadas, fizeram-me fazer sentir que não queriam ver-me mais. Com essa dor comecei a comer desalmadamente e recai num engate com outro homem. O sacerdote que me confessava alertou-me para que a falta de controlo sobre mim próprio tornavam impossível que me desse a alguém em casamento. Sabia que é verdade. Fiquei cheio de raiva.

Nessa mesma altura a empresa onde sempre trabalhei sofreu uma grande reestruturação. Forçou-me a mudar de funções para não me despedir. Colocou-me numa função extremamente absorvente e à qual, pelo medo de despedimento, me sujeitei. Deixei de ter tempo para as reuniões, telefonemas, o que fosse. 12 horas de trabalho, sempre a atender telefonemas de trabalho, sentindo-me inferior face aos novos colegas, que eram muito mais seniores do que eu nessas funções. De mês a mês recaídas em sexo ou pornografia ou nos dois.
Tenho frequentado diversos movimentos religiosos (onde não conhecem a Cátia) a tentar arranjar pontos de ajuda.
Há pouco tempo descobri o grupo Ser e Amar e espero retomar o trabalho sobre mim mesmo. Se calhar vou mesmo ter de pedir para mudar de funções e confiar mais em Deus…
Mais do que procurar a cura para a minha atração pelo mesmo sexo, nesta fase da vida procuro viver a castidade e um dia de cada vez, de modo a que possa sair de novo desta cegueira.
Sei que com a Graça de Deus, e pedindo para que aumente a minha fé, posso morrer na Sua amizade e reconciliado com a minha atração pelo mesmo sexo, com a Cátia e com a minha mãe.
Espero que o meu testemunho ajude outas pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo e não a desejam a não terem pressa e fazerem sem ansiedade esta terapia, eventualmente pedindo ajuda.